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sexta-feira, 2 de agosto de 2013

"Devemos nos servir da câmera para suprimir a câmera" - Carl Theodor Dreyer e as Reflexões Sobre seu Trabalho

Texto publicado no nº 65 da revista Les Cahiers Du Cinéma a dezembro de 1956
Por Carl Theodor Dreyer*

      Não sou um teórico do filme. Não sou mais um diretor e estou orgulhoso de meu ofício. Mas um artesão, mesmo sem querer, transmite suas idéias.
Nada tenho para ser considerado um revolucionário. Não creio nas revoluções. Muito frequentemente elas nos levam vários passos atrás. Estou mais inclinado a crer na “evolução”, “num passinho a frente”. O cinema só tem possibilidades de renovação artística a partir do “interior”. Os homens dificilmente se deixam afastar dos caminhos conhecidos. Estão agora habituados a uma reprodução fotográfica fiel da realidade, adoram reconhecer o que já conhecem. Desde sua aparição a câmera alcançou rápida vitória, porque usava um processo mecânico para registrar objetivamente as impressões do olho humano. Até o presente esta propriedade tem constituído a força do cinema, porém ela se torna, se queremos fazer obra de arte, um fator sobre o qual é preciso triunfar.

       Nós nos deixamos hipnotizar pela fotografia. Eis-nos, então frente à necessidade de libertarmos. Devemos nos servir da câmera para suprimir a câmera.
A fotografia, compreendida como técnica de reportagem, como curiosidade, obriga o filme a manter os pés na terra. É preciso que tiremos o cinema da esfera do naturalismo. É necessário reconhecer que perdemos tempo copiando uma realidade. Devemos usar a câmera para criar uma nova linguagem, um novo estilo, uma nova forma de arte.

      Mas antes de tudo, é preciso compreender o que entendermos por “arte” e “estilo”. O escritor dinamarquês Johannes V. Jensen definiu a arte como “uma forma interpretada pelo espírito”, definição que me parece perfeita. Chesterfield via no estilo “a roupagem dos pensamentos”, outra definição simples e precisa, desde que a roupagem não se faça notar demasiado. O que caracteriza o bom estilo, simples e preciso, é que ele deve se juntar ao conteúdo numa combinação tão íntima que se faça “síntese”. Se o estilo procura atrair atenção, ele deixa de ser estilo para se transformar em maneirismo.



       Defino facilmente o estilo como a forma sob a qual se exprime a inspiração artística. Reconhecemos o estilo de um artista por certos traços que são característicos de sua personalidade, que refletem sua natureza e aparência.

      O estilo de um filme, se este é uma obra de arte, é um produto de um grande número de componentes, como o jogo do ritmo e do enquadramento, as relações de intensidade das superfícies coloridas, a integração da luz e da sombra, o deslizamento controlado da câmera. Todas estas coisas, associadas à concepção que o diretor tem de sua matéria, determinam seu estilo. Se ele se põe a fotografar de uma maneira impessoal, sem alma, qualquer coisa que seus olhos possam ver, ele não tem estilo. Se ele se serve de sua inteligência para, a partir daquilo que seus olhos vêem, criar uma visão, ele realiza seu filme de acordo com esta visão, sem se importar com a realidade que a inspira, então sua obra será marcada com o selo sagrado da inspiração. Então o filme tem um estilo. (…)

         De que modo é possível uma renovação artística do cinema? Eu não posso responder a não ser por mim mesmo, e só posso ver um meio: a abstração. Para uma melhor compreensão, direi que a abstração é algo que exige do artista que saiba abstrair-se ele próprio da realidade, a fim de reforçar o conteúdo espiritual de sua obra. Enfim, o artista deve descrever a vida interior, não a exterior. A faculdade de abstrair é essencial a toda criação artística. A abstração permite ao diretor transpor o obstáculo que o naturalismo lhe impõe. Permite aos seus filmes não serem apenas visuais, mas também espirituais. O cineasta deve partilhar suas experiências artísticas e espirituais com o público. A abstração lhe oferece a probabilidade de fazê-lo, de substituir uma realidade objetiva por sua interpretação subjetiva. Isto equivale a dizer que devemos encontrar novos princípios de criação. E eu direi, de minha parte, que só penso aqui na imagem. As pessoas pensam por imagens e a imagem é o principal fator de um filme.



         O método mais fácil é o da simplificação. Todo criador depara com o mesmo problema. Ele deve se inspirar na realidade, depois distanciar-se, a fim de fazer fluir sua obra na forma de sua inspiração. O diretor deve ser livre para transformar a realidade até que ela se identifique com a simplicidade da imagem que lhe apresentou seu espírito. A realidade deve obedecer ao senso estético do diretor. (…)

        A abstração pode soar aos ouvidos dos homens de cinema como uma palavra nociva. Porém, meu único desejo é mostrar que existe um mundo além do naturalismo, o mundo da imaginação. É certo que a transformação deve ser feita sem que o diretor perca seu controle sobre o mundo da realidade. Sua realidade remodelada deve sempre permanecer como algo que o público possa reconhecer e no qual possa acreditar. Importa que as primeiras etapas rumo à abstração sejam cumpridas com tato e discrição. Não se deve chocar as pessoas, mas conduzi-las docemente em direção a novos caminhos. A tentativa se revela feliz, porque se abrem enormes perspectivas. Pode ser que o cinema nunca atinja a terceira dimensão, mas pelo caminho da abstração pode ser possível introduzir uma quarta ou uma quinta dimensão.



          Uma palavra sobre os atores. Quem tenha visto meus filmes – os bons – saberá que importância eu dou ao rosto do homem. É um território que jamais nos cansamos de explorar. Não há experiência mais nobre em um estúdio do que registrar a expressão de um rosto sensível à misteriosa força da inspiração. Vê-lo animado do interior, transformando-se em poesia.

 
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