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quinta-feira, 8 de maio de 2014

A Ostra e o Vento



      Voltei pra falar de um filme muito legal que se chama A Ostra e o Vento.

     Filme super premiado, brasileiro, de 1997 dirigido por Walter Lima Jr. com roteiro adaptado por ele mesmo e Flávio Tambellini, baseado no livro de Moacir C. Lopes.

       A direção de fotografia é de Pedro Farkas, a trilha sonora é de Wagner Tiso, e a canção-tema é de Chico Buarque e está no CD As Cidades.







       Sinopse "A jovem Marcela (Leandra Leal) vive com seu pai, o faroleiro Jose (Lima Duarte), e o velho Daniel (Fernando Torres) numa ilha. O único contato da menina com o mundo exterior se dá através de uma embarcação com 4 marinheiros que regularmente vai levar-lhes provisões. Através das palavras de Daniel, que a ensina a ler e é sua fonte de ternura e conhecimento, e da severidade do pai, que quer protegê-la do resto do mundo, Marcela segue sua vida até que, ao tornar-se adolescente, passa a sentir sua sexualidade e seus anseios de viver de forma intensa."

      Segue abaixo filme para vcs assistirem, logo após, a letra da canção de Chico Buarque e pra fechar com chave de ouro a análise/comentário do filme de Lúcia Thaler da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre, para a total (ou pelo menos uma boa esclarecida!!) compreensão do enredo e seus personagens!!







Pegue a Pipoca e Bom Divertimento!!!






Canção de Chico Buarque:



"Vai a onda
Vem a nuvem
Cai a folha
Quem sopra meu nome?
Raia o dia
Tem sereno
O pai ralha
Meu bem trouxe um perfume?
O meu amigo secreto
Põe meu coração a balançar
Pai, o tempo está virando
Pai, me deixa respirar o vento
Vento
Nem um barco
Nem um peixe
Cai a tarde
Quem sabe meu nome?
Paisagem
Ninguém se mexe
Paira o sol
Meu bem terá ciúme?
Meu namorado erradio
Sai de déu em déu a me buscar
Pai, olha que o tempo vira
Pai, me deixa caminhar ao vento
Vento
Se o mar tem o coral
A estrela, o caramujo
Um galeão no lodo
Jogada num quintal
Enxuta, a concha guarda o mar
No seu estojo
Ai, meu amor para sempre
Nunca me conceda descansar
Pai, o tempo vai virar
Meu pai, deixa me carregar o vento
Vento
Vento, vento."






"(...) Meu objetivo será discutir o filme do ponto de vista da psicanálise.
A ostra e o vento provocou-me um forte impacto estético. é um belo filme, com uma fotografia primorosa, que nos mostra imagens da natureza rudes, quase agressivas. Em meu entendimento, a temática principal deste filme são os sentimentos provocados pelo surgimento da adolescência. Assim, a crueza das imagens, a presença vigorosa do vento, das ondas, dos animais representariam o desabrochar da sexualidade de Marcela com toda a força que o caracteriza, pois sabe-se que é neste momento do desenvolvimento que as pulsões sexuais, que estavam adormecidas na etapa infantil da latência, ressurgem com todo o ímpeto. O filme mostraria o conflito interno de Marcela entre crescer e enfrentar os riscos de se tornar adulta ou permanecer uma menina protegida por seu pai.
          Assim, esta ostra que dá nome ao filme representa a protagonista da história. Ela é esta concha fechada, que possui um interior que pode ser muito valioso e desejável, mas que teme ser aberta e sugada, esvaziada e abandonada. Ela é esta ostra-mulher que reluta entre abrir-se ao mundo masculino ou esconder-se em sua casca. Creio que o momento em que sua identificação com a ostra fica mais clara é aquele em que todos os homens estão sorvendo a carne no interior das ostras com grande prazer e ela os fica observando com olhar de asco. Depois chora, quando vê que as cascas são jogadas fora sem consideração e afirma que nunca mais irá abrir as conchas. Quanto ao vento, ele é o representante masculino, o amante imaginário, este objeto cortante, sensual pelo qual deseja ser penetrada e amada.
      A narrativa do filme não é linear, mas cheia de idas e vindas no tempo: presente, passado e futuro mesclando-se a todo momento. Esta descontinuidade temporal é característica da linguagem inconsciente, da linguagem dos sonhos. Não há temporalidade no inconsciente: presente e passado se misturam. O desenrolar das cenas do filme também poderia lembrar o que se passa numa análise, na qual a associação livre segue em comunicações que podem, a princípio, parecer sem nexo, mas que, aos poucos, vão tecendo uma teia de possíveis significados. Partindo desta compreensão, podemos entender que, assim como numa análise, o que vai sucedendo na tela constitui uma conjunção, uma mescla de fatos reais e de fantasias inconscientes da protagonista.
      Penso que A ostra e o vento pode ser lido em inúmeros vértices do ponto de vista psicanalítico, mas pretendo privilegiar uma forma de abordagem que justamente permite a superposição destes dois aspectos: um olhar para o que teria acontecido na vida de Marcela e um olhar para seu mundo interno. As imagens que me sugeriram esta possibilidade foram justamente as cenas inicial e final do filme, onde aparece a ilha ao longe, e pude observar que o contorno da mesma delineava o perfil do rosto de uma jovem mulher. Pensei, então, que o filme estaria falando não apenas da história de Marcela, mas também do que ocorria em sua mente. A Ilha dos Afogados (este é o nome da ilha, no livro que deu origem ao roteiro do filme) seria, portanto, uma representação do que se passa na mente-ilha de Marcela, com as inúmeras emoções e personagens que ali habitam. Ocorre-me que o nome Marcela pode ser dividido em duas palavras: mar e cela. Pensei nesta ilha-mente que não consegue escapar em meio a este mar-cela imenso, profundo, perigoso. Que sensação estaria sendo aí representada? Quem sabe a desta menina que se sente presa de emoções e impulsos dos quais não consegue fugir e que não encontra a seu redor nada que facilite as saídas que seriam saudáveis.
        Há várias alusões no filme ao fato de que estamos lidando com forças desconhecidas e poderosas: o marinheiro que sente que algo o está puxando e querendo levá-lo a se afogar; o navio que se solta das amarras; o farol que se apaga; o vento incessante. Ou seja, mostra-se a força da sexualidade que emerge e toma conta da ilha-mente e também o perigo de que esta sexualidade seja levada às últimas conseqüências, de que ela tome conta de todos e não leve em consideração as interdições. No decorrer da narrativa, há vários momentos de tensão em que somos levados a suspeitar que algo terrível aconteceu. Assassinato? Incesto? Este clima corresponderia ao que estaria sucedendo no mundo interno de Marcela: esta vivência de que seus impulsos são poderosos e podem ocasionar algo violento, fora de controle. Mas o que seria esta “coisa” fora de controle? Penso que são os impulsos amorosos e agressivos que compõem a sexualidade: o amor incestuoso, algo irracional, inconsciente e universal.
     Creio, portanto, que o filme retrata a chegada transformadora da puberdade e adolescência da jovem Marcela, com todos os temores, ansiedades e violências com que esta etapa é vivida tanto pela adolescente quanto por aqueles que a cercam. Na adolescência, revive-se o complexo de édipo, que constitui o amor incestuoso do filho pela mãe e da filha pelo pai, com os desejos inconscientes de tomar o lugar do progenitor de mesmo sexo. E os pais revivem seus próprios complexos e problemáticas infantis, quando da adolescência de seus filhos. A verdadeira revolução que o tornar-se mulher representa, tanto para Marcela quanto para os demais personagens, é então retratada pelos acontecimentos que nos são relatados ao longo do filme.
       Nas imagens iniciais, aparece o farol em funcionamento e depois apagando-se e logo após o retorno de Daniel à ilha. O farol pode ser um símbolo do desejo de Marcela de poder orientar-se, enxergar o que se passa em sua cabeça-ilha, para melhor enfrentar seus conflitos adolescentes que começam a emergir. é também um símbolo fálico, um sinalizador do papel organizador da presença masculina no imaginário da adolescente. Daniel está no início do filme, retornando à ilha após uma ausência prolongada, a fim de desvendar o mistério do que se passou, o que fez com que o farol parasse de funcionar, o que aconteceu com Marcela e seu pai. Daniel aqui parece-me também ser um representante de uma parte farol da personalidade de Marcela. Ele vem em busca da verdade, do conhecimento, de iluminar o que se passa. Ele fala que, agora, pisando na ilha, passou o medo; que era um “medo de não fazer mais nada”. A meu ver, seria o medo de Marcela de não poder conhecer o que se passa consigo, o que se passa em seu inconsciente e ficar paralisada. Mas a parte Daniel na mente de Marcela resolve enfrentar e conhecer o que se passa em seu interior. Daniel vem para desvendar o mistério e para reacender o farol. Ao longo do filme, ele assume este papel, na medida em que ajuda Marcela a compreender o que se passa com seu corpo, com a realidade; ele também a ensina a ler e escrever e busca contato com o continente, através do conserto do rádio. Como presente, deixa-lhe um instrumento para orientar-se na navegação, que possibilita saber onde se encontra e que, segundo ele afirma, pode auxiliá-la a viajar com sua ilha-mente, ou seja, desenvolver-se, crescer. Ele representa, portanto, o que chamamos em psicanálise de pulsão epistemofílica ou pulsão do conhecimento: o desejo de saber e de crescer de Marcela, de entrar em contato com aspectos desconhecidos de sua personalidade, o desejo de ligar as emoções e as várias partes da personalidade e do corpo.
       Através de Daniel, ou seja, do desejo de Marcela de conhecer, vamos aos poucos sendo levados a compreender o que se passou nesta ilha-mente. Marcela foi precocemente privada do convívio com a mãe. Vive em um mundo de homens, sem figuras femininas com as quais identificar-se. Sua mãe teria sido uma prostituta, alguém que o pai, José, teria tirado da “sarjeta”. Ela diz que não consegue mais lembrar da mãe, ausência esta que certamente deixou marcas profundas de solidão e desamparo. E a imagem desvalorizada de sua mãe não contribui para que possa encarar o interior de sua “ostra” como valioso. No entanto, Daniel e Pepe são figuras que lhe possibilitam tomar contato e buscar alguma forma de identificação com um mundo feminino mais valorizado. Daniel é quem lhe explica o que é a menstruação, e Pepe lhe traz bonecas e vestidos, ensina-a a dançar, encantado com sua feminilidade e exercendo, portanto, um importante papel na aquisição de sua identidade de mulher.
N. Há várias leituras possíveis para o desaparecimento da mãe. Mas, quem sabe, sua ausência represente muito mais um sentimento de Marcela de possuir uma mãe pouco presente e incapaz de ajudá-la a enfrentar a força de sua vida instintiva e de fazer frente à ameaça de relação incestuosa com seu pai. O incêndio da casa onde moravam, quando ela ainda era uma pequena menina de 2 ou 3 anos, talvez simbolize a concretização das fantasias edípicas da menina de livrar-se da mãe pelo amor do seu pai; sua raiva e ciúme pelos momentos em que os pais estão sozinhos no quarto e ela está de fora. Assim, Marcela toma o lugar da mãe e assume o papel de dona de casa e de parceira de seu pai. Mas, ao mesmo tempo, sente-se usurpando o lugar da mãe, responsável pela ausência da mesma, o que provoca muitas dificuldades em sua evolução. Vê-se sozinha com o pai, não contando com outras figuras masculinas nas quais depositar seus desejos e nem com a mãe como um impedimento para a concretização de sua união com o pai.
     Quando da chegada da adolescência, a relação com o pai que havia transcorrido aparentemente bem, torna-se muito perturbadora, porque, além de não existir a figura da mãe, também não há outro objeto do desejo do pai a não ser a própria Marcela. O pai está só, disponível, e ambos estão presos na ilha. Poderíamos considerar que José está fixado na filha, não deseja outra mulher a não ser ela e, no momento em que a vê mulher e não mais menina, confunde-a com a esposa, a qual também queria possuir com uma exclusividade doentia. Ele não a autoriza a sair da ilha e ir em busca de outros objetos amorosos. Diz à filha que não quer que ela sofra e que o mundo lá fora é terrível; que a criou sozinho, sem a mãe e que assim devem continuar: apenas os dois. Ele também quer ser o único a tomar conta do farol. O único detentor do falo-conhecimento?
José nos é apresentado como alguém que não tolera a presença dos terceiros. Qualquer pessoa que se interponha entre ele e o seu objeto amoroso é imediatamente encarada como um inimigo que deve ser eliminado. Assim, a história parece sugerir que não tolerava a dupla amorosa formada por sua esposa e filha. Os ruídos das brincadeiras delas transformam-se em seus ouvidos em intolerável cena sexual da qual se vê excluído e traído. Da mesma forma, não tolera a amizade de Daniel com sua filha ou o interesse curioso que o jovem Roberto manifesta pela mesma. José propõe, portanto, permanentemente, um controle absoluto e tirânico sobre Marcela e sua infantilização para que não o abandone e troque por outro objeto de amor – o que seria o caminho saudável de seu desenvolvimento.
       Uma outra possível forma de entendimento seria a de tomar este pai como um objeto do mundo interno de Marcela, onde estão projetados os desejos dela de possuir o pai de forma intensa e exclusiva Tendo perdido precocemente a mãe, Marcela liga-se ao pai de forma absoluta, exclusiva, até a chegada da adolescência, quando retornam com toda força os impulsos sexuais. Seriam dela, então, estes sentimentos de possessão absoluta do pai. Daí é que se originariam suas sensações de claustrofobia e as dificuldades para conter seus impulsos. Ela estaria presa, ancorada na ilha por estes desejos perigosos e intensos. A criação de Saulo em seu imaginário seria um escape fantasioso para conseguir experimentar estes impulsos dirigidos a um outro objeto amoroso. Seria uma tentativa de, simultaneamente, dominar e também manifestar seu mundo instintivo. Saulo seria a projeção de seus impulsos sexuais. As cenas com Saulo evocam o ato sexual e a masturbação, e ela atribui ao “amante” uma volúpia e desejos de morte ao rival que entendo como uma projeção dos próprios desejos e fantasias da protagonista.
No início da vida, existe uma fantasia da criança de que ela e a mãe são, na verdade, uma única pessoa e que se completam e não precisam de mais ninguém para se satisfazer. A criança tem a fantasia de que a mãe não é um indivíduo separado de si. é a chamada etapa do narcisismo. Esta etapa deve dar lugar a um momento em que a criança toma conhecimento de que isto não é verdadeiro. E tal saber advém, principalmente, da noção de que a mãe não precisa apenas de seu filho, mas deseja também o seu parceiro sexual e é desejada por este. Aqui, seria o momento em que aconteceria um corte da relação dual com a mãe, propiciado pelo pai, que entra como um terceiro. Este seria responsável por desiludir a criança, mostrando-lhe que ela e a mãe não constituem um ser completo e inseparável. O pai faria tanto a mãe quanto a criança se darem conta desta separação e da existência dos terceiros.
     A partir deste conhecimento, podemos pensar que José falhou em sua função de promotor do corte da relação simbiótica. Ao contrário, parece muito mais funcionar como uma figura materna que necessita da filha como uma extensão de si e que não tolera os intrusos. é aí que entram as outras figuras, especialmente Daniel, mas também Pepe. Daniel , a meu ver, exerce o papel verdadeiramente paterno e interditor na história. é ele que tem a função de corte, de estar sempre lembrando a José, e especialmente a própria Marcela, que eles são seres separados, que Marcela tem outros desejos e necessidades além do pai; que ela deve sair da ilha (relação simbiótica, claustrofóbica) e ir para o continente encontrar novas relações. é ele que lhe dá o diário, também um símbolo da possibilidade de expressar desejos, pensamentos e fantasias, de dirigir-se a interesses externos ao pai. Diário este que, da mesma forma, será o que possibilitará ao próprio Daniel, depois, reconstruir os fatos ocorridos, encontrar as evidências do que sucedeu.
     Acho interessante observar como, em vários momentos no filme, aparecem três personagens, sendo que dois ocupam um plano frontal e há um terceiro ao fundo, o que alude, no meu entender, à oscilação, na mente de Marcela, entre crescer e desenvolver-se (admitindo a presença de um terceiro personagem que corte o vínculo dual), ou ficar pequena e grudada na mãe-pai (relação dual).
Numa das cenas em triângulo, Daniel está contando a Pepe que José suspeitava da existência de “um tal de Saulo”, e o outro marinheiro está ao fundo, contando, quase num sussurro, parecendo temer o que ali revelava, uma lenda a respeito de uma embarcação cuja tripulação misteriosamente desaparecera. Neste relato, a figura mitológica de Medusa é mencionada. Ele conta que “dois valentes”, que não temiam a Deus e a nenhuma maldição, foram verificar o que se passara com aquele navio. A neblina escondeu tudo e, no dia seguinte, quando finalmente o vento se foi, o mar estava vazio: não havia mais nem navio, nem bote e nem marujos. A partir deste fragmento, fiquei pensando na relação da história com esta lenda e com o mito da Medusa. Sintetizando em poucas palavras o mito, Medusa havia sido outrora uma linda mulher de belos cabelos – como Marcela – e que se viu transformada em um monstro com serpentes no lugar de cabelos, garras de javali, mãos de cobre e asas de ouro, por obra do ciúme de Minerva, pois Medusa havia seduzido Zeus, pai e amante de Minerva. Ela viu-se, portanto, transmutada em um ser terrorífico e para o qual ninguém poderia olhar, pois quem quer que a olhasse morreria e seria instantaneamente transformado em pedra. Fiquei conjeturando que Marcela vive um drama semelhante ao de Medusa. Ela também seduz uma figura proibida (o pai) e teme provocar a ira da figura materna, que retornaria para castigá-la terrivelmente. Marcela está vivendo um perigo constante em função de seus impulsos incestuosos e está apavorada e excitada pelos mesmos. Ultrapassá-los seria romper a barreira do incesto e enfrentar-se com uma temível vingança da figura materna: ver-se transformada em um monstro. A realidade parece confirmar uma fantasia de que ela pode destruir aqueles a quem ama e de quem necessita, pois sua mãe primeiro e depois Daniel já haviam desaparecido de sua vida. A menção a esta lenda e a este mito fazem-me pensar que o espectador é reportado ao perigo de que estes “dois valentes que nada temem” sejam castigados pelo Deus-superego, caso não reprimam seus desejos sexuais. Por que transformar-se em pedra pelo olhar de Medusa? Ora, sabe-se que se olha para aquilo que se deseja. Portanto, talvez isto simbolize que desejar quem não se deve leva a uma petrificação dos sentimentos. é algo paralizante e mortal. é preciso obedecer às interdições; caso contrário, a tragédia reeditar-se-á e a menina transformar-se-á em um monstro e todos aqueles a quem desejar-olhar desaparecerão sem deixar vestígios. Segundo uma bibliografia que pesquisei (Santos, 1996), Medusa simbolizaria a perversão da pulsão evolutiva, ou seja, ela representaria a estagnação da necessidade de crescer e evoluir. Não pude me furtar novamente ao paralelo, porque o que aparece no filme é que Marcela acaba se sentindo monstruosa por não conseguir evoluir e sair da posição edípica infantil.
       Considero que a saída de Daniel de cena e sua posterior substituição por Roberto também têm um significado. Enquanto Daniel é o velho sábio, que ensina as coisas da vida a Marcela, Roberto é o deficiente, o louco. O que será que isto pode significar?    Creio que representa que o caminho saudável da separação de Marcela do pai é abandonado. Sai de cena o interditor (Daniel), que é substituído por seu oposto: Roberto. Note-se que Roberto tem curiosidades sobre a protagonista, mas, sempre que se aproxima dela, é afastado imediatamente por uma crise epiléptica, pelo pai furioso que o ameaça de morte, caso queira tomar contato. Assim, parece que Marcela não pode mais tomar contato com o que sente, com o que vivencia em seu interior. Este conhecimento tornou-se intolerável. Ou, quem sabe, possa corresponder ao seu próprio enlouquecimento diante de demandas instintivas que não consegue mais administrar. De qualquer forma, está ainda mais só neste momento.
         Marcela fica aderida ao pai e não consegue crescer. Ela acaba sem saída e tendo que fazer o pai desaparecer de cena (virar pedra?), uma vez que o perigo de enclausuramento e de incesto é iminente. No momento em que Daniel vai embora da ilha, ela se desespera. O desejo de saber é substituído pelo seu oposto, representado por Roberto, o louco. A fuga para Saulo não mais está se mostrando suficiente para conter seus desejos incestuosos. Assim como as personagens da lenda que o marinheiro relata,   Marcela precisa livrar-se da presença de seu pai em sua mente-ilha. Talvez este desaparecimento deva ser entendido como algo mais simbólico do que tomado em sentido concreto. O pai desaparece nas águas e com ele também Roberto e a própria Marcela.   Será esta uma alusão ao castigo pelo crime edípico, ou muito mais uma alusão a que tais desejos deveriam submergir nas profundezas da mente, do inconsciente (representado pelo imenso mar revolto)? De qualquer forma, mostram que um amor incestuoso não pode ter outro fim que o de sucumbir; não pode realizar-se. E nem deixar testemunhas – como Daniel. Quando Daniel se dá conta do que aconteceu, refere que o farol vai apagar e, quando vai tentar evitar que isto aconteça, acaba morrendo. Isto representaria, a meu ver, a repressão da conflitiva edípica, a necessidade de que toda esta história acabe submergindo no inconsciente e deixando atrás de si apenas o diário, ou seja, fragmentos da verdade que poderão mais tarde, quem sabe, serem desvendados por um outro Daniel (pelo analista?). De qualquer forma, o enfarto de Daniel simboliza o trauma provocado pelo conhecimento da verdade dos desejos inconscientes proibidos. Neste mesmo momento, é mostrada uma cena em que uma das gaivotas irrompe vidro a dentro, ferindo-se e deixando um rastro de sangue. Esta me parece ser uma clara alusão à cena sexual, à defloração. Representaria esta a fantasia de defloração da adolescente por seu pai? Algo que não pode ser conhecido, que não pode deixar testemunhas na sua mente consciente (ilha)?
       Novamente, não posso me furtar a uma última analogia com a psicanálise: será que aquilo que os pacientes trazem diariamente às sessões não são estes pequenos fragmentos de um “diário” que está sempre em movimento, para a frente e para trás, incessantemente folheado pelo soprar dos impulsos, das emoções, das vivências atuais que remetem a páginas do passado daquela pessoa? Neste caso, nós, analistas, não deixamos de ser este Daniel que ajuda a encontrar os significados, a dar nome aos sentimentos, a iluminar o que se passa, a construir uma história que dê sentido à vida daqueles que nos procuram."



Referências
SANTOS, Marise de Souza Morais e Silva. Medusa – mito e estados depressivos. Recife, 11 de dezembro de 1996. (artigo pesquisado na Internet: www.artpage.com.br/marise/medusa1.html)
Lúcia Thaler Rua Sinimbu, 110/40190470-470 – Porto Alegre – RS – Brasil E-mail: luthaler@pro.via-rs.com.br© Revista de Psicanálise – SPPA
* Apresentado no Ciclo de Cinema e Psicanálise, em 18 de outubro de 1998. Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Promoção conjunta da Secretaria de Educação e Cultura e Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre.

 
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