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sábado, 28 de março de 2015

Vernissage: Um Campo Fértil para os Observadores da Natureza Humana!


       Particularmente não sei bem se eu que ando abominavelmente entediada com o ser humano, ou o ser humano está efetivamente aborrecido, ou os dois! Eu vou tentar explicar.
       Primeiramente que este post não tem a finalidade de tecer críticas técnicas ou análises sobre as obras de arte expostas, nem aos artistas, muito menos as curadorias já presenciadas por mim num vernissage, finissage ou exposições. Quero sim, comentar elementos pontuais referentes ao universo artístico, principalmente os bastidores e também expor meu ponto de vista sobre a diversidade do comportamento humanos em eventos deste tipo. Neste texto, sou uma fotógrafa que retrata através de palavras aquilo que meus sentidos captaram e como “fotografia literária”, também é datada estas observações.

        Consideremos que o vernissage é um evento VIP, logo um núcleo seleto de artistas, amigos e afins são convidados, então nestes eventos, revemos colegas queridos, conhecemos pessoas novas, cerzimos relações das mais diversas ordem, mas também, este VIP pode conter uma armadilha muito sutil para o ego...
         Num ambiente onde a maioria tem um nível intelectual diferenciado da massa, conexões com a arte, todos elegantemente vestidos e personalizados (!) regado a boa música, comes e principalmente bebes... Ahhh... Para os observadores de plantão... É um "prato cheio", onde a flora e a fauna humana se expõem com uma sutileza e classe que, para quem tem olhos clínicos, soa caricata! (Ou para pessoas que estão sofrendo de tédio humanístico assim como eu!)
       Já vos adianto: não tem verniz e polimento comportamental nenhum neste mundo, que mascare as pequenezas e grandezas da alma! Como somos ridiculamente humanos... Sim! Somos, não me incluir neste contexto, seria mais ridículo ainda, pois sou uma observadora atuante e por diversas vezes provocativa, testando até onde vai a elasticidade da elegância e do ego (meu e alheio!). 
       Num primeiro momento, onde as pessoas estão chegando, ainda sóbrias e realmente interessadas em arte - nem todas! - temos alguns tipos de comportamentos.
         Conforme o vinho (ou champagne) vai entrando, invariavelmente a verdade vai saindo (ou o superego vai ficando amortizado!), aí, as observações do primeiro momento atreladas a este segundo alcóolico momento, ficam muito mais interessantes e curiosas!!!
            Primeiramente vamos aos comportamentos clichês, se bem que tudo é clichê... Enfim.
        Tem aqueles que vão para prestigiar o artista e suas obras, conhecer outros trabalhos e expandir seu olhar artístico, agregar repertório visual ao seu. 
       Tem outros que vão com medo de não entender nada do que está exposto, afinal, nem toda obra de arte é óbvia e até as aparentemente óbvias, verdadeiramente não são óbvias.
Ponto de vista.
Fonte: http://www.gofeminin.de/liebe/
fremdgehen-in-der-ehe-d21785c282712.html
Este grupo de pessoas ou olham com um olhar de profundo interesse e silêncio tentando compreender, ou apenas fazendo o tipo intelectual, para não “fazer feio”. 
   Outros procuram, vamos assim dizer, equacionar a arte, racionaliza-la ao invés de senti-la, que é o grande barato! Claro que se o sujeito que observa possui conhecimento de arte, das mais diversas técnicas, gosto talhado, obviamente, seu olhar será muito mais apurado que de um leigo, mas a sensibilidade aguçada é algo nato em determinadas pessoas! Já me deparei com situações onde um sujeito se achava um ignorante total no que diz respeito a arte - ignorante no sentido mais pejorativo da palavra mesmo! Este rapaz, certo dia, através de seu falar tímido e inseguro, teceu comentários sobre uma imagem, usando seu repertório interno extremamente sensível, que me surpreendeu de tal maneira, que eu nunca, digo NUNCA, pude ver aquela imagem como eu via anteriormente. Ele sim foi tocado pela obra de arte, ou seja, esta cumpriu verdadeiramente o seu papel, o de mexer com as suas estruturas emocionais, logo a verbalização das percepções deste meu colega, ditas de forma muito singela, humilde e muito honesta transformaram o meu olhar pra sempre! Juntamente com este, outro colega, tremendo conhecedor de arte e suas vertentes, fez um comentário assustadoramente estrondoso tamanha riqueza de conhecimento sobre a mesma imagem! O primeiro encolheu-se mais ainda, achando-se um nada, mas eu entendi que por mais conhecimento que se tenha, nem sempre se é tocado pela arte. O tímido foi tocado, o estrondoso equacionou e quando se equaciona, racionaliza-se e o sentir se perde, logo a arte também perde sua função...
        Mil vezes uma pessoa sensível a arte, que os teóricos racionais. Ahhh... Estes sim são por vezes aborrecidos... e muitas vezes adoram gastar seu discurso repleto de conhecimento e pouca alma, principalmente em ambientes intelectualizados. Nada contra o intelecto elevado, veja bem, mas se tem arte, tem que ter uma resposta da alma, dos sentidos, do sentimento e não apenas um blablablá pavoneantemente teórico destituído de emoção. Quando isso acontece, geralmente, este pavão quer ter mais importância que a própria arte exposta.
       O ideal é a sensibilidade atrelada ao conhecimento, pois esta dupla invariavelmente permite deliciosas e enriquecedoras viagens imaginárias sobre um tema. No geral, os insensíveis são demasiadamente teóricos e exibicionistas, ao passo que os sensíveis se acham ignorantes e se calam. Uma pena...
       Voltando ao vernissage, tem um grupo curiosamente divertido que chamo de séquito, onde
uns vão para comer e beber de graça. Outros vão apenas para criticar ou invejar o prestigiado. Tem os que vão a trabalho para expandir seu network. Outros para auto promoção. Alguns para fofocar, flertar, paquerar, se divertir e no geral, se sentir importante por participar de um seleto grupo de convivas. Este grupo de séquitos, que a priori, parece somente fazer barulho e volume ao evento, representam o que de mais comicamente humano existe! Tem coisa mais ridiculamente divertida que fazer selfie junto, ou na frente da obra de arte, fazendo biquinho, claro, usando esta como objeto de auto promoção? Até aí tudo bem, quem nunca? Né? A obra de arte está saindo do sublime para ser popularmente interatuável! Super legal!  O grupo dos invejosos e recalcados são terríveis! A cara de nojo, desdém com o artista e suas obras é caricata, não é a questão de não gostar da obra ou mesmo do que é exposto, coisa muito normal e saudável, é um lance venenoso de criticar tudo, desde a tinta usada, ou o material esculpido, até a roupa e cabelo do artista! Fazer comparações sempre com o intuito de diminuir o artista e suas obras e se promover, sempre como donos da verdade e em casos extremos tecendo fofocas pavorosas sobre a vida íntima do artista, para propositalmente desviar o foco do objeto que deveria estar ali pra ser apreciado. Alguns são tão provincianos e birrentos que nem comparecem ao evento! Estes aí realmente fazem um favor, sinceramente. 
O grupo do network/business vai para ver como funciona a dinâmica do evento para poder reproduzir ou mesmo adquirir conhecimentos para seus empreendimentos. Sempre levam cartões de visita e distribuem mais que panfletos na esquina! Sorrisos e tapinhas nas costas são primordiais. O objetivo é comercial, vamos assim dizer, as pessoas são contatos futuros para algum negócio, diferente de encontrar uma parceira criativa, aquele encontro de almas, sabe? Não, o lance é bem business.
Tem o grupo da paquera, que já aproveitam o assunto, ou o tema de uma obra exposta pra puxar assunto, que papo vai e vem, quando menos se nota, já foram trocados telefonemas, já se adicionaram mutuamente ao fcbk, alguns com a desculpa esfarrapadézima de manter contato profissional, esta é bem usual da parte dos casados que vão sem a esposa ao evento e claro, se alguma gatinha der mole, pra que fazer o sério, né? Flertar faz bem! Alguns contatos se aprofundam no futuro, outros permanecem restritos aquele evento, outros viram ótimos relacionamentos amorosos  e assim caminha a humanidade em busca de algum amor, passatempo ou algo sentimental  que alegre suas vidas! Particularmente, acho divertidíssimo os casados, com aquela baita aliança no dedo, tiozinhos, todos pimpõens com qualquer mulher bonita, principalmente jovem que vos dê um pouco mais atenção e sorria! Eu mesma já me diverti inúmeras vezes dando atenção a estes tipos! Parecem cachorros abobados abanando o rabinho ao seu dono! (Eita como sou maldosa, venenosa! kkkkkkkkkkk) Mas é sério gente, muito engraçada as histórias contadas, todas heróicas, com muito verniz e cores, uma vida sem problemas, todo bem resolvidos, bem sucedidos, salvo aqueles grupo que sempre choram um pouquinho reclamando do casamento: “…é, eu casei mal. Minha esposa não me acompanha… vamos nos separar…blablablablá” Este se você der corda… iiiih… vai contar tanta lorota - que eles mesmo acreditam! - que alguma desavisada vai apiedar-se e acreditar. Eu faço cara de piedade e compaixão, mas no fundo estou sendo apenas política. Sim política, isso aprendi muito bem com meu finado esposo Sérgio, ética sou com meus afetos. 
       Mudando o foco do público para o artista, existem aqueles extremamente competentes, com um talento hipnotizante que merecem todos os elogios! Tem outros que são por demais confusos... Descompromissados... Negligentes... Mesmo sobrando talento, por muitas vezes falta humildade pra reconhecer que tal elemento escolhido pra ser exposto não está bom, (está uma merda na verdade) e compromete todo o conjunto da obra. Nisto, meu curador, Daniel Salum, da EPA, era extremamente rígido, severo, não tinha meio termo, ou vc apresenta algo de qualidade, ou tira aquilo que vai queimar seu filme, peque pela falta, não pelo excesso! E é a mais pura verdade!! Num conjunto de obras lindas e interessantes, por apego ou sei lá qual devaneio que leva ao artista a querer encaixar determinado elemento destoante a este conjunto, faz com que este elemento ruidoso seja o foco principal, gritando sua mediocridade e ofuscando as demais obras de arte expostas, e olha, não adianta contar com a misericórdia dos observadores não!
Eles vão falar que aquilo estava ruim, destoante e vai ser o assunto da semana, principalmente em "boca de Matildes" recalcadas que não toleram não ser a estrela paparicada da vez, ou de críticos especializados que certamente não deixarão escapar tamanha  gafe do artista e principalmente da curadoria.  Aliás os ruídos possíveis e indesejáveis são diversos, desde uma impressão mal feita, um acabamento negligenciado, assim como ganchos mal feitos e tortos, uma moldura pavorosa - gente, certa vez vi um quadro lindíssimo, mas com uma moldura taaaão vagabunda, tão feia, que nem porta retrato de loja de 1,99 vendia algo assim! Tive ímpetos de arrancar aquilo e deixar sem nada!! Mas não podia fazê-lo, claro! Na dúvida, não use moldura. Quer ousar? Tem dúvidas? Converse com seu curador. Gente, você pode ser o melhor artista do mundo, mas o curador é primordial, fundamental, essencial! Uma boa curadoria te leva às estrelas!
         Você curioso leitor deve estar imaginando: "Ah Jussara, você está sendo por demais crítica e fatalista, não é bem assim!” Verdade, nem sempre é bem assim, uma parte dos convivas do grupo séquito certamente estarão ocupados com suas atividades e nem notarão nada, ou quase nada.
Ainda falando de artistas, infelizmente existem aqueles arrogantes, prepotentes e acima de tudo ignorantes, que desprezam e a importância da curadoria. Já lidei com exemplares deste tipo, exemplares que certamente não lerão um texto longo deste. Juro pra vocês, a boca da pessoa parecia uma metralhadora de besteiras ao explicar o trabalho da curadoria, minorando-o. A mente estreita simplesmente ignora o tanto de conhecimento e senso de organização  necessária para se  organizar uma exposição, seja qual for. Acho que o apogeu por mim presenciado, foi o fato de fulano chegar a dizer: “mas é só dependurar os quadros na parede!” Quando ouvi isso, nossa,  meus olhos saltaram das órbitas, imagine vocês, a cara que a curadora fez… se fosse meu antigo professor Salum, certamente alvejaria a pessoa com bombas literalmente de efeito moral!!!! Olha o nível de ignorância e egocentrismo: fulano ignorou totalmente as outras obras de arte de outros artistas expostos no mesmo espaço e só trouxe suas obras horas antes da abertura do vernissage. Falta de noção, respeito, imaturidade e excesso de estrelismo. Só com muita classe e elegância para lidar com tais situações.
Por fim, depois depois de tudo isso, chego a conclusão que as únicas coisas verdadeiramente  autênticas, sinceras e confiáveis são as obras de arte!
      
 
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