Serviços e Criações

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Desabafo Capilar


Ultimamente ando trabalhando com lista de afazeres e procurando cumprir o maior número possível de metas cumpridas, assim me organizo melhor, venço a procrastinação e o fluxo do movimento mantém-se, assim como almeja o universo.

Pois bem, uma das várias metas de hoje era cortar e pintar o cabelo. Por coincidência ou não, sai com o cabelo sujo (um dia sem lavar pra mim é sujo), amassado, rebelde, bem bad hair day, e fui resolver as pendências, até que, estando eu num armarinho, um moço do nada, do nadaaa, "materializou-se" ao meu lado e disse:

- Nossa! Que cabelo bonito! Que cor bonita! *----* !

Eu olhei com certo estranhamento, não pelo elogio, ou "óh! Esta me xavecando!", que graças a Deus sou despida destes pruridos, mas porque justamente o meu cabelo estava na sua melhor performance "Bad Hair Day feat. Que se Dane Tudo", confesso que por um momento eu pensei: Velho, esse cara ta me zuando!

Então retruquei:

- Nuooossa!!! - Seguida de uma gargalhada - justo hoje que ainda vou cortar e preciso pintar/colorir/tingi (entenda-se: raizão pegando, desbotado e os brancos fazendo a festa)!!!!

E o moço como que hipnotizado:

- Nossa *____* , a cor do seu cabelo é linda... O cabelo é lindo...

Ok, né!? Sorri, agradeci e elogiei o cabelo dele também, que era repleto de cachinhos miudos.

Alterei minha rota e fui num salão de shopping às pressas cortar o cabelo com algum mão de tesoura disponível, afinal ainda tinham itens na lista pendentes! Quando cheguei no salão, vi o cabra que ia "fazer o serviço", logo pensei: Isso vai dar merda. Logo em seguida pensei: bobagem, dê uma chance, não julgue o livro pela capa!

O anjo da guarda deu o toque, eu ignorei e começou a sessão tortura...

A moça que lavou meus cabelos, me fez sentir em meio a uma faxina pesada, tamanha rudeza e esfregação nos meus cabelos, ok. Fiz uma pergunta redundante se fulano era bom cabeleireiro e ela, claro, disse que era um dos melhores. Neste instante eu tinha me esquecido por completo que estava na província.

Cumprimentei o cabra, tomei um café e mostrei como queria o cabelo, sacando um corte estilo bob 1920 francês. Se eu tivesse mostrado um ET, um nada, um fantasma seria a mesma coisa, porque ele não viu, não processou a informação visual e conceitual, apenas o "chanel com franja e bico na frente". Entretida com minha fome de leão comendo uma salada de frutas e as dores do desencravar as unhas do meu pé, não fiquei focada no que ele fazia, exceto que percebi um excesso de desfiar de cabelo, erguer e desfiar loucamente! Calma lá, é um corte reto, simétrico praticamente, que porra é essa pseudo Eduardo Mãos de Tesoura!? Quem me conhece, sabe que não temo a tesoura, meu cabelo cresce mais rápido que mato na chuva, até Joãozinho já usei, mas pohan... é inverno... E por incrível que pareça, Campinas tem dias frios e eu tenho muito frio na cabeça e na nuca! O meu projeto de corte, eram fios RETOS pesados e no verão deixar curtinho de novo e enquanto isso o cabra lá desfiando meus cabelos. Quando parou, eu olhei... (com aquela cara que quem só me conhece ao vivo conhece, de ironia, deboche e reprovação) peguei o cabelo com a ponta dos dedos (tipo nojo) e disse:

- O que é isso? Esta desfiação toda??

Ele defendeu-se:

- Mas pra fazer o corte que vc quer tem que desfiar!

Creio que ele estava feliz achando que tinha acabado o corte de cabelo, se livrado de mim, mas eu acabei com a graça dele, mesmo custando meus cabelos ruivos hipnóticos e desbotados, dizendo:

- O que é isso? Chemotherapy haircut? (Tipo, cabelo de quem faz quimioterapia, fininho, pouquinho... Humor negro "mode on") e continuei:

- Ok! Vc já se divertiu bastante desfiando, agora vamos arrumar isso, certo? É com a máquina que vc vai cortar e com a tesoura reta, alinhado assim, assim, assim e assado, bombardeando ele com informações e muuuitas fotos de época com a porra do corte pra ver se ele entendia!!! Ele se defendeu dizendo:

- Mas assim vai ficar parecendo um capacete!

Aí já rebati me ligando que "estava na província" e usei um tom de voz doce de mamãe ensinando o filhinho lerdo (irritação e deboche "mode on"):

- Eu sei que este corte é muito diferente do que as pessoas usam, vc nunca deve ter cortado algo ousado assim, é um conceito estranho pra vc, mas fazendo direitinho, fica ótimo!

Ele deve ter me odiado, muito mais ainda, quando eu dizia:

- Corte sem medo meu cabelo! Eu não tenho medo ou dó de cabelo porque ele cresce e muito rápido, não sou de aparar pontas!

Claro que era óbvia a disputa (velada) de braço entre a minha vontade e a dele, que tinha como arma a tesoura e a estratégia de tosar meu cabelo ou furar meu olho, óbvio que preferiu usar a primeira tática, a mais temida pelas maioria das mulheres (e não da cadeia) exceto por mim, que naquela altura do campeonato já me via como Elis Regina nos tempos de pimentinha.

Minha arma constituía-se na falta de medo, mandando cortar mesmo e no poder de persuasão e comando, pra bom entendedor: na língua enorme, afiada, que fala como se superego não existisse - sincericídeo. Tesoura x língua, qual a mais afiada?

A unha do pé além de feita já estava seca e o cabra lá, suando. Então, ele perguntou o que sempre me perguntam:

- Vc não é daqui, né?

Tive vontade de dizer que era de Marte, mas fui delicadamente diplomática na resposta.

Ele pediu pra conferir o corte, eu mostrei mais uma série de ajustes necessários e junto zombava de mim mesma rindo (que remédio?) como se fosse a fala dele após eu ir embora:

- Que nunca mais me venha esta ruiva tinhosa aqui de novo!

Ele riu, cortou mais, suou mais e descontraído disse:

- É um corte muito usado lá fora né? Bem típico de NY.

Eu fiz uma cara de interjeição, discretíssima, claro, do tipo: Jesus, mas o que este homem está falando...? E retruquei de-li-ca-da-men-te:

- Na verdade, esse é um corte (uma tentativa a esta altura do campeonato) clássico francês.

O tempo passando, eu com mil coisas pendentes e o cara não tinha sacado ainda o conceito do corte de cabelo!!!! Ele não ia mais do que aquilo, então, parei por ali, conformada com o que tinha pra hoje.

Ao secar o cabelo, ele foi penteando, ajeitando e surpreso perguntou:

- Mas seu cabelo é liso assim mesmo??

Eu:

- É.

Gente, em tempos de escova progressiva, um cabelo liso natural é algo tão raro assim?? (Pergunto pois já ouvi isso de outras pessoas ao secarem meu cabelo).

Nem a pomada finalizadora ele teve coragem de passar, colocando-a em minhas mãos e dizendo pra eu ajeitar, claro, ele nem sabia como ajeitar aquilo!

Ajeitei como gosto e ele elogiou.

Fui embora com frio na nuca e na cabeça, mas algumas coisas serviram de lição, pensamento etc etc etc...:

 

1- Graças a Deus que sou bonita e qualquer porra fica boa em meu rosto!

2 - Repertório e imaginação é fundamental pra qualquer ser humano ir bem no que faz, principalmente no que envolve elementos artísticos ou estéticos.

3 - Cagada ou mais provavelmente inconscientemente eu mudei algo que refletiu num corte de cabelo mais curto, diferente, estilo 1920 moderninho, mas bem fora do que vislumbrei.

4 - (Que pode ser o item 2 da lista) não ignore sua intuição, pois é seu anjinho da guarda dando um toque.

5 - Respeite a limitação alheia, faça o sujeito trabalhar pelo que pagou mas o ensine a fazer o que se quer.

6 - Nem sempre concluir todos os itens da lista de afazeres, transformando sua vida num mundo corporativo, onde a produtividade é o fundamental, dá certo.

7 - Aceite o novo, é bom mudar!

8 - Ainda bem que tenho mil panos pra colocar na cabeça além de boinas e chapéus! (Agora mesmo escrevo com um turbante na cabeça, pois estou com muito frio)

9 - Não volto nunca mais naquele salão, só se por falta absurda de recursos.

10 - Vou precisar comprar uma pomada estilizadora, mas em compensação vou economizar horrores em tintura!!!

E finalmente... Pra fechar com chave de ouro a lista:

11 - Vc pode achar que está tendo um bad hair day, mas isso não é necessariamente uma verdade!!!

 

Na hora de ir embora, voltei com um taxista que (olha a coincidência!!!) que era de Santo André, estava odiando Campinas, não via a hora de voltar para a sua cidade e ainda completou:

- Vc acredita que em 7 anos aqui eu nunca achei um cabeleireiro bom que acertasse meu cabelo direito? E olha que sou homem e meu cabelo é fácil!!

E eu:

- Acredito!!!!

 

Da pra acreditar??!

 

 

 
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