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sábado, 26 de setembro de 2015

Como um mictório comum se transforma em obra de arte e como este mudou os rumos da arte?





         Quem nunca ouviu falar da obra de arte “Fonte”, de Marcel Duchamp? Ouvir falar, muita gente ouviu, mas entender o seu propósito, sentido e sua importância no mundo das artes…hum… aí complica…
         Por que raios Duchamp foi até o nº 118 da quinta avenida, acompanhado de seus amigos Joseph Stella e Walter Arensberg, no estabelecimento comercial de J.L. Mott, um especialista em encanamentos e compra um mictório modelo Bedfordshire??

         A resposta encontrei lendo o livro Isso é Arte?, de Wil Gompertz e vou partilhar com vcs este conhecimento que particularmente mudou e muito minha cabecinha!!! Confesso que sempre me deparava com “Fonte” em diversas publicações, livros, tirinhas, etc etc etc e não sabia o que era “aquilo”. Era uma obra familiar, ou melhor, um objeto familiar, mas totalmente descontextualizado para mim! Como se tivesse um mictório perdido em meio as minhas lembranças das obras de arte de  Monet, Rembrand, Rodin, Degas, Caravaggio, Man Ray, Joseph Stella, Joel Piterwithikin, Irina Ionesco…  entre meus parcos conhecimentos artísticos. Talvez o objeto estivesse tão aceito internamente em mim, que nunca pensei em questioná-lo, compreendê-lo. Aliás, não só isso, mas vulgarizado, a ponto de passar imperceptível aos meus questionamentos, como se fosse mais um objeto qualquer disposto em minha mesa de trabalho. Que horror admitir isso!!!! Meu Deus!! A caveira de Duchamp deve estar se chacoalhando - e muito! - com esta minha confissão! Não sei se de pesar escandaloso, mas provavelmente de rir, pois ao contrário de muitas pessoas, não olhava para Fonte com a seriedade e reverência que ela causa hoje em nós, filhos da contemporaneidade.
         Não é porque determinada obra de arte é familiar aos nosso olhos, que verdadeiramente a conhecemos e introjetamos seu sentido/propósito a ponto dela causar uma metanóia! Pra mim é isso: arte bem digerida causa metanóia. Ou no mínimo certa emoção!
         Confesso que depois que aprendi que Fonte levou o conceito readymade num  nível confrontador, segundo as próprias palavras de Gompertz, nunca mais vi um objeto como via antes, inclusive faço uma releitura mental de vários readymade que encontrei ao longo dos meus 36 anos e nunca me dei conta!


         Então vamos compreender porque Fonte se tornou a obra de arte mais influente criada no seculo XX:

         Primeiramente, é preciso nos localizar na linha do tempo: 2 de abril de 1917, o presidente norte-americano Woodrow Wilson exorta  o Congresso a fazer uma declaração formal de guerra à Alemanha, um ano antes de acabar a Primeira Guerra mundial. Nasce Ella Fitzgerald e morre Bufalo Bill, Cleopatra, de J. Gordon Edwards, com Theda Bara é estreado nos cinemas. Em 13 de maio ocorre a primeira de seis aparições de Nossa Senhora a três crianças, em Fátima - Portugal. Aqui em terras brasilis, a IBM abre a sua primeira filial na América Latina, Pixinguinha e João de Barro compõem Carinhoso e em praticamente no resto do mundo… Guerra.

http://www.gisele-freund.com/men-of-letters-surrealists

         Em 1917, nos Estados Unidos, o conservadorismo da National Academy of Design era asfixiante para o desenvolvimento da arte moderna em sua plenitude.  Até aquele momento, o meio – tela mármore, madeira ou pedra – havia ditado o modo como o artista iria ou poderia abordar a feiura de uma obra. O meio sempre vinha primeiro, e só depois era permitido ao artista projetar suas idéias sobre ele, como pintura, escultura ou desenho.
         O francês Marcel Duchamp queria inverter isso, considerava o meio secundário: o primordial era a idéia, só depois de ter escolhido um conceito artista estava apto a escolher um meio que lhe permitisse expressar sua idéia de maneira bem sucedida. E se isso significasse usar um mictório de porcelana, tudo bem!
         Outra opinião muito disseminada – até os dias de hoje… por incrível que pareça… - que Duchamp queria desmascarar como falsa e considerava um disparate: a de que artistas são de certo modo uma forma  mais elevada de vida humana. Que merecem o status elevado que a sociedade lhes confere por supostamente possuírem inteligencia, perspicácia e sabedoria exepcionais. “Os artistas se levam e são levados a sério demais! (momento “eu estou amando muito Duchamp!!!” Momento “como não achá-lo excepcional mediante tal perspicácia!?? Momento “fiquei confusa”.)
         E não pára por aí!!! Ele queria não só desafiar o establishment artístico do país, como testar a fidelidade ao ideal da Sociedade dos Artistas Independentes, o qual ele fazia parte como diretor e membro do comitê organizador!
         Tá, ir contra a voz autoritária da National Academy of Design e suas idéias estreitas e tacanhas, ok, compreendido. Mas… pra que desafiar a Sociedade dos Artistas Independentes, da qual ele era membro???   

         A Sociedade dos Artistas Independentes tinha como propósito combater a National Academy of Design com um conjunto novo de princípios, liberal e preogressista: declarava que qualquer artista poderia se tornar membro da Sociedade a preço de 1 dólar, e que qualquer artista membro poderia inscrever duas obras para a Exposição dos Artistas Independentes, contando que pagasse a taxa adicional de 5 dólares por arte.
         Ele estava provocando os colegas diretores e o regulamento da organização, (que ajudara a redigir!), desafiando-os a serem fiéis ao ideal que haviam coletivamente estabelecido!







        


        Marcel Duchamp tinha uma idéia em que já vinha trabalhado há alguns anos, desde que prendera a roda de uma bicicleta e seu garfo dianteiro a um banco em seu ateliê ainda na França. Ao chegar aos Estados Unidos, comprou uma pá para neve  e gravou uma inscrição sobre ela antes de pendurá-la no teto pelo cabo. Assinou “from”e não “by” Marcel Duchamp, deixando bastante claro seu papel no processo: aquilo era uma idéia “vinda de” um artista em contraposição a uma obra de arte  “produzida por” um artista. Chamou esta nova forma de fazer arte de “readymade”: uma escultura já pronta.


         Ele acreditava ter inventado uma nova forma de escultura: uma em que o artista podia selecionar qualquer objeto produzido em massa sem nenhum mérito estético óbvio e, libertando-o de sua finalidade funcional - em outras palavras tornando-o inútil -, dando-lhe um nome e mudando o contexto e o angulo do qual seria visto normalmente, transformando-o numa obra de arte de fato. Foi isso que Marcel Duchamp fez com o bendito mictório Bedfordshire!
         Após comprá-lo, leva-o a seu ateliê e assina-o numa posição em que este parece estar de cabeça para baixo. Entretanto, não assina seu nome, e sim o pseudonimo “R. Mutt 1917” e o intitula de Fonte. Voilà!!! Está pronto o readymade mais importante da história da arte!!!



         A escolha do mictório está repleta de simbolismos complexos assim como a mente de Duchamp, o caráter erótico – aspecto  que ele explorou vastamente em suas obras ao longo da vida, o questionamento da própria noção do que constituía uma obra de arte tal como decretada por acadêmicos e críticos, que via como árbitros autoescolhidos e em geral não qualificados do gosto. Cabia ao artista decidir o quera e não era um a obra de arte! Ou seja, se um artista dissesse que tal coisa era uma obra de arte, tendo interferido em seu contexto e significado, ela era uma obra de arte! Princípio fundamental do readymade!
        
         A idéia era simples de compreender, mas causaria uma revolução no mundo das artes.

         Outro simbolismo interessante, se refere a assinatura do suposto autor da obra R. Mutt, que faz alusão as histórias em quadrinho “Mutt e Jeff” publicado no San Francisco Chronicle, 1907, Mutt era um personagem imbecil, totalmente motivado pela cobiça, sempre fazendo planos absurdos para enriquecer rapidamente e viciado em jogos. Para Duchamp, Fonte era uma crítica aos colecionadores gananciosos e especuladores, também para os diretores de museu ignorantes e pomposos.
         Já o “R.”do pseudônimo R. Mutt, representa Richard, um coloquialismo francês para “Sacos de dinheiro”.

         Chegou o grande dia, o de entregar a Fonte no saguão do salão de exposições. A reação imediata foi nojo e consternação, a peça foi considerada ofensiva e vulgar por se tratar de mictório, um tópico não apropriado para a discussão entre a classe média puritada dos Estados Unidos. Além dissso, a diretoria que condenava a obra, achava que  sr. R. Mutt estava zombamdo deles! E estava!
         Mesmo com os 6 dólares pagos a Sociedade dos Artistas Independentes, Fonte foi recusada e não pode ser exposta, mesmo sendo defendida por Duchamp, Arensberg e outros diretores cientes de sua proveniencia de propósito ardorosamente. O time de Duchamp renunciou o comitê, Fonte jamais foi vista em público e reza a lenda que um dos membros enojados da Sociedade havia destruído a peça para acabar com o dilema “expôr ou não”.
         Eis que… o grande poder das idéias é que não é possível desinventá-las! O famoso fotógrafo Alfred Stieglitz fotografou Fonte (ou fez uma reprodução, que posteriormente desapareceu também!), ato de extrema importância para a história do mundo das artes, pois Stieglitz era dono de uma influente galeria de arte em Manhattan, além de ser um dos fotógrafos mais respeitados do mundo!!!


         A obra tinha sido edossada pelo mundo artístico de vanguarda como uma peça de arte legítima, portanto merecedora de ser documentada como tal por uma importante galeria e por um grande fotógrafo reverenciado. Além disso tudo, a fotografia é a prova documental da existência do objeto!
         Fonte podia ser despedaçada inúmeras vezes, mas bastava algém voltar a loja de mictórios e comprar uma peça e assinar, que pronto, cada um poderia ter sua própria Fonte! De fato isso aconteceu, 15 exemplares de Fonte foram endossados por Duchamp e podem ser encontrados em coleções espalhadas pelo mundo.

         Duchamp cumpriu seu propósito, o de ser o responsável direto do debate eterno “isso é arte?” . Ele acreditava que o artista tinha a mesma função que o filósofo, o de afastar-se do mundo e tentar compreende-lo ou comentá-lo por meio de apresentação de idéias sem nenhum propósito funcional além de si mesmas. O trabalho do artista não era proporcionar prazer estético, para isso que existem os designers.


         Duchamp emergiu da história da arte moderna, ele não a iniciou, pois ela começara antes mesmo que ele nascesse, no século XIX, quando eventos mundiais conspiraram para fazer Paris o lugar intectualmente mais estimulante do planeta, entretanto, com Fonte, Duchamp redefiniu o que era arte e o que poderia ser.
 
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